Thursday, September 8, 2016

"Achei-o na varanda da casa estirado numa cadeira, bufando muito. Não me recebeu mal. Começou por  não  dizer  nada;  pôs  em  mim  dois  olhos  de  gato  que  observa;  depois,  uma  espécie  de  riso  maligno  alumiou-lhe  as  feições,  que  eram  duras.  Afinal,  disse-me  que  nenhum  dos  enfermeiros  que  tivera,  prestava para nada, dormiam muito, eram respondões e andavam ao  faro das escravas; dois eram até  gatunos  
— Você é gatuno?
— Não, senhor.
Em seguida, perguntou-me pelo nome: disse-lho e ele fez um gesto de espanto. Colombo? Não, senhor: Procópio José Gomes Valongo. Valongo? achou que não era nome de gente, e propôs chamar-me tão- somente Procópio,  ao  que  respondi  que  estaria  pelo  que  fosse  de  seu  agrado.  Conto-lhe  esta  particularidade, não só porque me parece pintá-lo bem, como porque a minha resposta deu de mim a  melhor idéia ao coronel. Ele mesmo o declarou ao vigário, acrescentando que eu era o mais simpático  dos enfermeiros que tivera. A verdade é que vivemos uma lua-de-mel de sete dias." (Machado de Assis, "O enfermeiro," 21)

Esta parte do texto prefigura o resto do conto numa maneira irônica. O coronel fala dos problemas que teve com os outros enfermeiros mas aqui diz que no início ele e o Procópio se davam bem. Quando ele pergunta se Procópio é gatuno ele diz que não é e parece que o coronel acredita a palavra dele. Ele acredita tanto que deixa a herança toda dele com o Procópio. Provavelmente não teria feito isso com um dos enfermeiros anteriores que só queriam fazer-lhe mal. A ironia é que o Procópio mata o coronel e ganha tudo dele. 


Mesmo que seja sem querer o Procópio se torna o pior enfermeiro mesmo que seja o mais confiado. De certa maneira pode ser considerada ladrão mesmo que não planejou este ataque. Até as últimas palavras que o Procópio registra do coronel acusa ele de ser ladrão. A maior indicação que ele se tornou ladrão é como ele usa o dinheiro por si mesmo. Homem honesto teria confessado e dado este dinheiro a caridade mas ele não é honesto. Eu gostei da ironia e como de Assis a usa para trazer mais sentido para o conto.

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