"Achei-o na varanda da casa estirado numa
cadeira, bufando muito. Não me recebeu mal. Começou por não dizer
nada; pôs em mim dois olhos de
gato que observa; depois, uma espécie
de riso maligno alumiou-lhe as feições,
que eram duras. Afinal, disse-me que
nenhum dos enfermeiros que tivera, prestava
para nada, dormiam muito, eram respondões e andavam ao faro das escravas;
dois eram até gatunos
— Você é gatuno?
— Não, senhor.
Em seguida, perguntou-me pelo nome: disse-lho e ele
fez um gesto de espanto. Colombo? Não, senhor: Procópio José Gomes Valongo.
Valongo? achou que não era nome de gente, e propôs chamar-me tão- somente
Procópio, ao que respondi que estaria pelo
que fosse de seu agrado. Conto-lhe
esta particularidade, não só porque me parece pintá-lo bem, como
porque a minha resposta deu de mim a melhor idéia ao coronel. Ele mesmo o
declarou ao vigário, acrescentando que eu era o mais simpático dos
enfermeiros que tivera. A verdade é que vivemos uma lua-de-mel de sete
dias." (Machado de Assis, "O enfermeiro," 21)
Esta parte do texto prefigura o resto do conto numa maneira irônica. O coronel fala dos problemas que teve com os outros enfermeiros mas aqui diz que no início ele e o Procópio se davam bem. Quando ele pergunta se Procópio é gatuno ele diz que não é e parece que o coronel acredita a palavra dele. Ele acredita tanto que deixa a herança toda dele com o Procópio. Provavelmente não teria feito isso com um dos enfermeiros anteriores que só queriam fazer-lhe mal. A ironia é que o Procópio mata o coronel e ganha tudo dele.
Mesmo que seja sem querer o Procópio se torna o pior enfermeiro mesmo que seja o mais confiado. De certa maneira pode ser considerada ladrão mesmo que não planejou este ataque. Até as últimas palavras que o Procópio registra do coronel acusa ele de ser ladrão. A maior indicação que ele se tornou ladrão é como ele usa o dinheiro por si mesmo. Homem honesto teria confessado e dado este dinheiro a caridade mas ele não é honesto. Eu gostei da ironia e como de Assis a usa para trazer mais sentido para o conto.
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