Friday, September 30, 2016

"Dá-me então um com que possa atrever-me eu, não, um desses não, dá-me antes um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim, Essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro, Se tenho a linguagem, é como se o fosse" (José Saramango"A Ilha Desconhecida" 42-42).

Que diferença faz se ele é marinheiro ou não? Ele não tem titúlo nenhum mas mesmo assim ele acha que vai conseguir encontrar uma ilha desconhecida. É melhor se achar capaz de fazer algo ou ter um título? O rei tem um título mas parece que ele não faz nada. Não faz sentido ter barcos sem explorar mas é o que o rei faz. A mulher da limpeza tem título mas parece no começo que só isso defina ela. Ela segue o homem para ser a mulher da limpeza do barco. Parece que só o homem é livre para escolher seu destino, mas ele nem sabe que isso seria.

É difícil não saber onde se encaixa numa sociedade, mas também tem liberdade nisso. Pode ser o que quiser e se consegue agir naquela função não deve fazer diferença. Um exemplo que não é muito bom, mas dá é o Donald Trump. Mesmo não sendo um político ele é candidato para ser presidente. Se consegue fazer isso sem ser político quer dizer que ele ainda não é político? Ou se tornou político ao se candidatar. De qualquer jeito ele é candidato como o homem do barco poderia ser marinherio.


Thursday, September 22, 2016

"Eu é que já comia devagar, um pouco nauseado sem saber por quê, participando também não sabia de quê. De repente ei- lo a estremecer todo, levando o guardanapo aos olhos e apertando-os numa brutalidade que me enleva... Abandono com certa decisão o garfo no prato, eu próprio com um aperto insuportável na garganta, furioso, quebrado em submissão." (Clarice Lispector, "O Jantar," Online PDF ) 

Essa passagem revela uma qualidade humana que eu acho muito interessante. Esta é a curiosidade mórbida que se manifesta quando alguém tem que ver algo fora do normal. Isso pode ser coisa assustador, nojento ou estranho mas seja que for tem um efeito interessante em muitas pessoas. Ao invés de ignorar esta coisa perturbante, uma pessoa vai olhar com mais cuidado ainda. No caso neste conto isso traz um sentimento de nojo.

Mesmo que uma imagem pode trazer maus sentimentos, a curiosidade é uma força humana mais forte que qual quer nojo ou medo. Até onde vai essa curiosidade e o que satisfaz? O narrador do conto passa fome por sua curiosidade. Não consegue se alimentar por que so prestava atenção no velho comendo e ficou com tanto nojo que não sentia mais desejo de comer. Então é melhor analisar o mundo ao nosso redor e não poder fazer nada sem julgar os outros ou ignorar algumas coisas e viver uma vida mais feliz como o velho? Acho que a resposta é uma combinação dos dois. Precisa a curiosdade suficiente para aprender, mas não é necessário saber de tudo.

Thursday, September 15, 2016

"Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar
acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e
não queria perdê-la.
— É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
— Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. S. João não digo, nem Santo Antônio..." (Machado de Assis, "A Missa do Galo," 28).

Aqui tem uma das evidências mais fortes do que a Conceição está aproveitando a atenção fornecido pelo Nougeira. Tanto depois como antes este momento ela fala da fé dela como algo agradável mas aqui ela fala da missa como se fosse algo chato. Ela diz que toda missa é a mesma seja onde for. Um católico dedicado com oratório que acredita em espíritos e quer imagens na casa provavelmente não teria dito isso sem razão. A missa na Corte seria uma experiência única para um católico do interior e ela entenderia isso.

O que ela realmente está dizendo é se ele tem que ir naquela missa naquela noite. Ela quer que ele fica lá enquanto o marido dela "vai ao teatro." Mesmo que talvez não está tentando seduzir ele, a Conceição se sente melhor com a atenção deste rapaz. Só quando o vizinho chega e bate na janela ela deixa o Nougeira ir. Talvez se o vizinho não tivesse chegado à noite teria sido diferente.

Thursday, September 8, 2016

"Achei-o na varanda da casa estirado numa cadeira, bufando muito. Não me recebeu mal. Começou por  não  dizer  nada;  pôs  em  mim  dois  olhos  de  gato  que  observa;  depois,  uma  espécie  de  riso  maligno  alumiou-lhe  as  feições,  que  eram  duras.  Afinal,  disse-me  que  nenhum  dos  enfermeiros  que  tivera,  prestava para nada, dormiam muito, eram respondões e andavam ao  faro das escravas; dois eram até  gatunos  
— Você é gatuno?
— Não, senhor.
Em seguida, perguntou-me pelo nome: disse-lho e ele fez um gesto de espanto. Colombo? Não, senhor: Procópio José Gomes Valongo. Valongo? achou que não era nome de gente, e propôs chamar-me tão- somente Procópio,  ao  que  respondi  que  estaria  pelo  que  fosse  de  seu  agrado.  Conto-lhe  esta  particularidade, não só porque me parece pintá-lo bem, como porque a minha resposta deu de mim a  melhor idéia ao coronel. Ele mesmo o declarou ao vigário, acrescentando que eu era o mais simpático  dos enfermeiros que tivera. A verdade é que vivemos uma lua-de-mel de sete dias." (Machado de Assis, "O enfermeiro," 21)

Esta parte do texto prefigura o resto do conto numa maneira irônica. O coronel fala dos problemas que teve com os outros enfermeiros mas aqui diz que no início ele e o Procópio se davam bem. Quando ele pergunta se Procópio é gatuno ele diz que não é e parece que o coronel acredita a palavra dele. Ele acredita tanto que deixa a herança toda dele com o Procópio. Provavelmente não teria feito isso com um dos enfermeiros anteriores que só queriam fazer-lhe mal. A ironia é que o Procópio mata o coronel e ganha tudo dele. 


Mesmo que seja sem querer o Procópio se torna o pior enfermeiro mesmo que seja o mais confiado. De certa maneira pode ser considerada ladrão mesmo que não planejou este ataque. Até as últimas palavras que o Procópio registra do coronel acusa ele de ser ladrão. A maior indicação que ele se tornou ladrão é como ele usa o dinheiro por si mesmo. Homem honesto teria confessado e dado este dinheiro a caridade mas ele não é honesto. Eu gostei da ironia e como de Assis a usa para trazer mais sentido para o conto.

Friday, September 2, 2016

"A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água é o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável." (Machado de Assis, "A Cartomante," 20)


Esta passagem traz um falso sentido de fé e esperança para o leitor. Pode até fazer o leitor esquecer a infidelidade da Rita por causa da esperança que Camilo sente sobre o futuro deles. O problema é que a fé e a esperança não serve quando são imitações da verdade. O cartomante prediz o futuro por dinheiro e o amor do Camilo e Rita se baseia em mentira e imoralidade. Estes dons aparentemente divinais são inúteis para todos no conto porque eles são corruptos. É pior ainda que Camilo só monstra fé em um momento difícil quando aparece que não há outra opção.

A conclusão do conto é tão mais chocante devido ao falso seguridade que de Assis nos dá com essa passagem. Acho que ele não está atacando a fé mas está explorando as implicações de ter fé por motivos errados e consultar uma pessoa "divina" que abusa seu poder. Essas coisa são vazias como as diversões que Camilo e Rita desfrutavam. Tudo isso é mostrado nessa passagem mas só quando lido novamente depois de ter terminado a leitura.